terça-feira, 12 de maio de 2020

CAMPO GERAL

JOÃO GUIMARÃES ROSA

Guimarães Rosa, considerado o maior escritor brasileiro do século XX, produziu contos, novelas e romances conhecidos pelo exímio trabalho com a linguagem. “Reinventando” a língua portuguesa, Rosa construiu novos vocábulos que a libertam de sua função meramente utilitária, recuperando a linguagem poética. Representante da 3ª fase do modernismo brasileiro, Rosa cria uma literatura que aproveita e absorve o trabalho da Geração de 30, oferecendo outra resposta aos (mesmos) problemas brasileiros.

Biografia de Guimarães Rosa

João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo (MG), em 27 de junho de 1908. Filho de um pequeno comerciante, mudou-se para Belo Horizonte em 1918, para dar continuidade aos estudos. Formou-se em Medicina, em 1930, e exerceu a profissão em cidades do interior mineiro, como Itaúna e Barbacena. Durante esse período, publicou seus primeiros contos na revista O cruzeiro e estudou, por conta própria, alemão e russo.

Guimarães Rosa é uma figura ilustre da literatura brasileira. [1]
Guimarães Rosa é uma figura ilustre da literatura brasileira. [1]

Versado em nove idiomas, Rosa ingressou na carreira diplomática em 1934. Foi cônsul-adjunto em Hamburgo, na Alemanha, até o fim da aliança entre os países durante a Segunda Guerra Mundial, o que o levou ao cárcere em Baden-Baden em 1942. Depois de solto, tornou-se secretário da embaixada brasileira em Bogotá, e então conselheiro diplomático em Paris. De volta ao Brasil, é promovido a ministro de primeira classe.

Em 1963 é eleito, por unanimidade, membro da Academia Brasileira de Letras. Foi também representante do Brasil no II Congresso Latino-Americano de Escritores e do Conselho Federal de Cultura, em 1967. Morre no Rio de Janeiro, em 19 de novembro desse mesmo ano, vítima de um enfarte.

Características literárias

Grande pesquisador e conhecedor de diversas línguas, Guimarães Rosa fez inúmeras viagens de campo, tornando sua literatura uma fusão de arcaísmos, cultura popular e mundo erudito. São principalmente as localidades rurais e seus universos de pobreza, sempre periféricas ao mundo do capital e da divisão do trabalho, que aparecem na obra do autor.

É nesse cenário que Rosa mergulha na experiência do homem iletrado, calcada na natureza, na religiosidade, no mito, na providência divina, num sentido de trabalho ligado a rituais antigos etc. Suas personagens, distantes da modernidade, recuperam um pensamento mítico-mágico: não enxergam o mundo prioritariamente pelo universo lógico-racional. O mundo mágico não é um universo do outro, mas se dilui na própria voz do narrador. Sua literatura adere-se ao mundo do homem rústico.

Esse universo do iletrado, privilegiado pelo autor, envolve uma busca poética e uma latente discussão acerca da arte. A visão de mundo que Rosa recupera é a do alógico. Crianças, loucos, velhos, deficientes, desajustados, milagreiros e até bichos: há um predomínio dessas vozes incomuns em sua obra, distantes da realidade empírica e concreta, mais próximas do mito. Essas personagens ganham um estatuto de vidência, pois o autor questiona a ordem do mundo lógico-racional, que entende os fatos como verdade e a poesia como imaginação.

O mito e o mundo encantado estão à margem da sociedade moderna; estão na boca e no imaginário dessas personagens desajustadas. E é nelas que Rosa vê a origem da poesia, que teria sido de certa forma contagiada pelas necessidades da vida fática, do desgaste da linguagem pela mera comunicação.

“Não entender, não entender, até virar criança.”

(“O Cara-de-Bronze”, em Corpo de baile, J. G. Rosa)

A verdade não está na realidade, mas na poesia. Rosa cria um universo atrelado a um estilo. Potencializa vários recursos da língua portuguesa para levar a cabo essa criação, de modo a superar o utilitarismo da língua. Ele constrói esse mundo mágico pela revitalização da linguagem, em busca de uma linguagem novamente poetizada, e o universo da “pessoa simples”, do iletrado, tem uma potencialidade poética.

Leia mais: Função poética da linguagem: inovação do código

Grande sertão: veredas

Grande sertão: veredas é o grande romance de Guimarães Rosa. Trata-se do longo relato de Riobaldo, um ex-jagunço que, já envelhecido e afastado das funções, põe-se em prosa com um visitante, letrado e urbano, cuja voz não aparece, e que deseja conhecer o sertão mineiro. Narrado em primeira pessoa, Riobaldo é aquele que conta a sua história e a trajetória dos seus pensamentos, refazendo as lembranças dos caminhos percorridos e trazendo à luz novas reminiscências.

De maneira não linear, como no fluxo da memória e das conversas ao pé da fogueira, o narrador conta a história da vingança contra Hermógenes, jagunço traidor, e envereda-se pelo labirinto dos sendeiros que o levaram à jagunçagem, aos recônditos do sertão, a espaços pouco conhecidos do Brasil.

Grande sertão: veredas é um romance único, com uma narrativa peculiar. [2]
Grande sertão: veredas é um romance único, com uma narrativa peculiar. [2]

As paisagens por onde transitou Riobaldo apontam marcadamente para os lugares geográficos correspondentes aos estados de Minas Gerais, Goiás e Bahia. Não obstante, o sertão de Rosa, ao mesmo tempo, é e não é real. Não é só sertão geográfico, mas projeção da alma: Grande sertão: veredas é a alma de Riobaldo.

Esse sertão é do tamanho do mundo — ali estão os problemas locais, o coronelismo, o jaguncismo, as diferenças sociais. A eles acoplam-se os problemas universais. O sertão de Riobaldo é o palco de sua vida e suas inquietações; todos os episódios que relata são permeados de reflexões sobre o bem e o mal, a guerra e a paz, a alegria e a tristeza, a liberdade e o medo — os paradoxos de que é composta sua própria história e a história da humanidade.

Como nomear e identificar o bem e o mal no sistema jagunço, em que impera a violência e a luta pelo poder? Pelas memórias de Riobaldo surgem centenas de personagens e informações, um sem número labiríntico de falas sertanejas, vozes do povo perante uma estrutura de heranças coloniais que não se soluciona.

Também central é o tema do amor, encarnado na personagem de Diadorim, que interpola as lembranças de Riobaldo e que também não se soluciona. Diadorim é colega jagunço de Riobaldo, e em meio a esse universo viril e estruturalmente machista, a homossexualidade não é tolerável. Assim, ao passo em que suscita o desejo de Riobaldo, levanta também o incômodo e a não aceitação do personagem com aquilo que sente.

É o conflito, novamente, entre o bem e o mal, em que Diadorim representa o diabólico, aquilo que Riobaldo rejeita, e ao mesmo tempo deseja. O desfecho do romance, porém, revela uma inusitada informação sobre Diadorim, que gera ainda maiores reflexões sobre o que foi e o que não foi vivido.

Leia também: A engenhosidade poética de João Cabral de Melo Neto

Prêmios

  • 1937: 1º Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras, pelo livro Magma
  • 1937: Segundo lugar no Prêmio Humberto de Campos, da Livraria José Olympio, pelo livro Contos
  • 1946: Prêmio da Sociedade Felipe d’Oliveira, pelo livro Sagarana
  • 1956: Prêmio Machado de Assis, Prêmio Carmen Dolores Barbosa e Prêmio Paula Brito, todos pelo livro Grande sertão: veredas
  • 1961: Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto da obra
  • 1963: Prêmio do Pen Club brasileiro, pelo livro Primeiras estórias
  • 1966: Recebimento da Medalha da Inconfidência e da condecoração da Ordem de Rio Branco

Frases

“A gente só sabe bem aquilo que não entende.”
“Moço! Deus é paciência. O contrário, é o diabo.”
"Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal por principiar."
"A colheita é comum, mas o capinar é sozinho."
“Coração cresce de todo lado. Coração vige feito riacho colominhando por entre serras e varjas, matas e campinas. Coração mistura amores. Tudo cabe.”
“O senhor… mire e veja: o mais importante e bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas — mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior.”
“O rio não quer chegar a lugar algum, só quer ser mais profundo.”
“Sorte nunca é de um só, é de dois, é de todos… Sorte nasce cada manhã, e já está velha ao meio-dia…”
https://brasilescola.uol.com.br/literatura/guimaraes-rosa.htm

Crédito de imagem
[1] Luis War / Shutterstock
[2] Companhia das Letras (Reprodução)


Por Luiza Brandino
Professora de Literatura

IN: https://brasilescola.uol.com.br/literatura/guimaraes-rosa.htm

Para saber mais:

http://www.academia.org.br/academicos/joao-guimaraes-rosa/biografia

http://www.releituras.com/guimarosa_bio.asp


Manuelzão e Miguilim

RESUMO

O romance regionalista de Guimarães Rosa, Manuelzão e Miguilim, é dividido em duas narrativas: Campo Geral e Uma Estória de Amor.

Campo Geral narra a história da família e da vida de Miguilim no interior do sertão mineiro. O menino experimenta diversas situações típicas da infância, os medos, as brincadeiras. No entanto, uma experiência específica será decisiva para o seu amadurecimento: a morte do irmão mais novo, Dito. Pouco tempo depois desse trágico acontecimento, Miguilim é levado para trabalhar com o pai e a relação entre os dois se torna cada vez pior. 

Após algum tempo, o menino adoece e chega mesmo a acreditar que vai morrer. Entretanto, uma tragédia com outro familiar acaba interrompendo o destaque que essas reflexões ganham na história. Bernardo, pai de Miguilim, mata um vaqueiro e em seguida se suicida. Com isso, o tio Terez se casa com a mãe do menino. Nesse momento surge um novo personagem, o médico. Com o restabelecimento de Miguilim, este homem desempenha um papel fundamental em sua formação, pois descobre sua miopia e lhe fornece seus primeiros óculos. A novela tem fim quando, acompanhado do doutor Lourenço, Miguilim deixa a casa em que viveu toda a vida e vai estudar na cidade.

Uma Estória de Amor é uma narrativa sobre os preparativos e a festa organizada por Manuelzão para a inauguração da capela para Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, construída em homenagem à sua mãe. A festa acaba envolvendo mais pessoas que o previsto, deixando Manuelzão preocupado. O organizador convida também um padre e a família de seu filho, Adelço, para a festa.

Apesar de não ter boa relação com o filho, Manuelzão tem grande admiração por Leonísia, esposa de Adelço. A beleza da mulher chega a provocar desejos inadequados no sogro, que vive um conflito interior. 

Enquanto se desdobram os preparativos para a festa, o protagonista relembra antigas histórias, e por fim, quando chega o padre, a comemoração tem de fato início. No segundo dia de festa é celebrada a missa, que é seguida por mais danças e cantigas. Contadora de histórias, Joana Xaviel também ganha destaque no evento, narrando casos que entretêm a todos.  Ao fim da narrativa, Manuelzão se sente mais jovem do que realmente é, a festa ajuda a recuperar algo de sua mocidade. 

CONTEXTO

Sobre o autor
Guimarães rosa é um dos principais nomes da literatura brasileira do século XX. Sua obra, traduzida para muitos idiomas, é considerada revolucionária em vários aspectos. O sertão brasileiro era um ambiente recorrente nos escritos do mineiro, que apostava no regionalismo para narrar as histórias. Rosa é lembrando também pela inovação na linguagem, utilizando influências da fala popular no seu texto.

Importância do livro
Manuelzão e Miguilim, obra composta pelas novelas Campo Geral e Uma Estória de Amor, revela toda a genialidade de Guimarães Rosa na construção de enredos e no trabalho com a linguagem. De fato, os dois textos, denominados por ele ‘poemas’, combinam com maestria a oralidade do interior com temas filosóficos universais, como o crescimento. 

Período
Manuelzão e Miguilim foi lançado em 1964, um ano depois de o autor ser eleito para a Academia Brasileira de Letras por unanimidade. Porém, com medo de se emocionar demais, só tomou posse após quatro anos. Infelizmente, faleceu três dias depois.

ANÁLISE

As duas obras de Manuelzão e Miguilim, inicialmente publicadas no volume Corpo de Baile unidas a outras cinco novelas, podem ser vistas como exemplos de um procedimento recorrente na obra de Guimarães Rosa: partir do regional para atingir valores universais. Dessa forma, cada uma apresenta um momento da vida: infância e velhice.

Em Campo Geral, embora o protagonista não seja o narrador, todos os fatos são apresentados de acordo com sua visão de mundo. Dessa forma, pode-se perceber que a intenção de Rosa era criar seu universo ficcional a partir da percepção de um menino em processo de crescimento. Trata-se também de uma história de aprendizagem, já que acompanhamos o processo de amadurecimento do pequeno Miguilim. 

Em Uma Estória de Amor, o procedimento narrativo também é bastante interessante, está presente o foco em terceira pessoa e, assim como em Campo geral, em diversos momentos o autor emprega o fluxo de consciência, recurso através do qual falas e pensamentos são misturados. O recurso cria um ritmo que dá dinamismo e sofisticação à narrativa.  

Ambas as narrativas têm por característica a forte presença da oralidade, desenvolvida, porém, em um universo que também dialoga com a alta cultura. Além disso, há nas novelas os típicos procedimentos de criação de palavras de Guimarães Rosa. 

Em relação ao tempo, as duas narrativas também apresentam pontos comuns, em ambas a temporalidade psicológica é mais importante que a cronológica. O tempo de amadurecimento de Miguilim, assim como a percepção temporal de Manuelzão, que inclui vários períodos de resgate do passado, são as que realmente contam para a estruturação da narrativa.  

O espaço também é fundamental para a compreensão das novelas. Ambientadas no sertão de Minas, a natureza local parece favorecer a construção das narrativas, fornecendo o ambiente necessário para o desenrolar dos enredos.

PERSONAGENS

Campo geral
- Miguilim: Menino de oito anos, inteligente e sensível, o personagem se desenvolve ao longo da narrativa. É levado por um médico para estudar na cidade.

- Nhanina: Mãe de Miguilim, mulher bonita, mas que não gosta de viver em um local tão remoto. 

- Bernardo: Pai de Miguilim, homem duro e por vezes autoritário. Era um homem difícil de lidar.

- Dito: Um dos irmãos de Miguilim, é seu maior companheiro. Criança inteligente, Dito está sempre atento ao que se passa no mundo dos adultos. Sua morte deixa Miguilim abalado.

- Tio Terez: irmão do pai de Miguilim é uma pessoa pela qual o protagonista tem muito apreço. Com a morte de Bernardo, casa-se com a mulher do irmão.

Uma Estória de Amor
- Manuelzão: Um vaqueiro de idade já considerável que decide organizar uma festa para celebrar a inauguração de uma capela.

- Adelço: Filho de Manuelzão, homem trabalhador e que tem muito amor por sua família, mas que não tem afinidade com o pai.

- Leonísia: esposa de Adelço, tem carinho por Manuelzão e é considerada por ele um exemplo de bondade e beleza. 

- Joana Xaviel: contadora de histórias, não tem moradia fixa. Participa da festa entretendo os convidados.

IN: http://educacao.globo.com/literatura/assunto/resumos-de-livros/manuelzao-e-miguilim.html

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