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segunda-feira, 18 de maio de 2020

O MARINHEIRO

FERNANDO PESSOA
Clássicos de Fernando Pessoa - Literatura - InfoEscola

Considerado um dos principais nomes da Literatura mundial e, em especial, da Literatura Portuguesa, Fernando Pessoa foi um escritor, poeta, redator e tradutor.

As obras do português contêm características diferenciadas e inovadoras para a época, como o uso do recurso da heteronímia, característica que o torna um artista múltiplo, como veremos a seguir.

Pela sua genialidade e obra ímpar, Fernando Pessoa é um dos autores mais abordados em vestibulares e no Enem.

VIDA

Fernando Pessoa nasceu no dia 13 de junho de 1888, no Largo de São Carlos, na cidade de Lisboa, em Portugal. Seus pais eram Joaquim de Seabra Pessoa e Maria Magdalena Pinheiro Nogueira Pessoa.

Passou grande parte da infância em Durban, colônia britânica situada na África do Sul, onde seu padrasto era cônsul português.

O pai do escritor morreu de tuberculose quando ele tinha cinco anos de idade. Conforme estudos, na adolescência Pessoa era um rapaz tímido, mas inteligente, bom aluno e dono de grande imaginação.

Fernando Pessoa começou a escrever poemas ainda criança. Seu primeiro texto data de 1895, quando tinha sete anos.

Pessoa chegou a ingressar no curso de graduação em Letras, em Lisboa. Porém, após dois anos, o abandonou. Ele preferia estudar por conta própria na Biblioteca Nacional. Lia livros em Inglês e Português.

“Tenho em mim todos os sonhos do mundo”

Ainda jovem, com cerca de 22 anos, o artista já escrevia em Português, Inglês e Francês. Produzia obras em prosa e poesia. Também começou a atuar como crítico literário e redator em revistas, chegando a dirigir algumas delas.

Além de escrever livros, Pessoa redigiu ensaios, peças de teatro, novelas, críticas literárias, entre outros. Dedicou-se também à astrologia e à publicidade.

Por ter morado na África do Sul, dominava o inglês. Assim, ele sempre trabalhou com tradução. Traduziu a obra O corvo, uma das principais do estadunidense Edgar Allan Poe.

Em 1920, Pessoa passou a morar com a mãe, a meia-irmã e os dois meios-irmãos na Rua Coelho da Rocha, nº 16, em Lisboa, onde é hoje a Casa Fernando Pessoa.

A família do português considerava-o afetuoso e amável, mas muito reservado. Estudos indicam que ele teve uma vida discreta e livre, em especial de horários, e que era bipolar.

Fernando Pessoa deixou como legado mais de 25 mil folhas escritas, as quais estão guardadas na Biblioteca Nacional de Portugal. Entre suas redações, encontram-se poesias, peças de teatro, contos, ensaios filosóficos, críticas literárias, traduções, teorias linguísticas, textos políticos, cartas astrológicas, entre outras.

“Tudo vale a pena se a alma não é pequena”

Fernando Pessoa morreu aos 47 anos, no dia 30 de novembro em 1935, vítima de uma cirrose hepática.

Na véspera de sua morte, escreveu a lápis, em inglês, a seguinte frase: “I know not what tomorrow will bring (Não sei o que o amanhã trará)”.

Túmulo de Fernando Pessoa situa-se no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa Crédito: Commons
Túmulo de Fernando Pessoa situa-se no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa


OBRA

Pessoa dedicou grande parte dos seus 47 anos de vida à carreira de escritor. Segundo ele, ser poeta e escritor não era uma profissão, mas vocação.

Fernando Pessoa é considerado modernista, uma vez que foi um dos escritores que iniciaram o movimento em Portugal, ao lado de nomes como Almada Negreiros, Mário de Sá-Carneiro, Luís de Montalvor e Ronald de Carvalho.

Veja também: Exercícios sobre Mário de Sá-Carneiro

O escritor ajudou a fundar a revista Orfheu, responsável por divulgar as ideias modernistas em Portugal e também no Brasil.

Pessoa gostava de fazer reflexões sobre identidade, verdade e existencialismo. Algumas de suas poesias tinham caráter nacionalista.

Confira abaixo as principais obras de Fernando Pessoa:

  • Livro do Desassossego: considerada a obra do escritor que mais se assemelha a um romance;

  • Mensagem: formado por 44 poemas, é o único livro de Pessoa publicado em vida. Foi escrito em 1934, em português;

  • Poemas completos de Alberto Caeiro: coletânea de obras de Caeiro, um dos heterônimos mais famosos de Pessoa ao lado de Álvaro de Campos e Ricardo Reis.

  • Poesias: contém vários poemas bastantes conhecidos, entre os quais se destacam “Tabacaria”, “Poema em linha reta”, “Ode marítima”, “Autopsicografia”, “Aniversário”, “Todas as cartas de amor…” e “Não sei quantas almas tenho”.

Fernando Pessoa é o escritor português mais famoso no mundo *

HETERÔNIMOS

Um dos diferenciais das obras e poesias de Fernando Pessoa é o uso da heteronímia – recurso utilizado por um escritor quando ele escreve textos assinando com outros nomes.

Valendo-se dos heterônimos, Pessoa apresentava características como desdobramento do “eu”, multiplicação de identidades e sinceridade do fingimento.

“Esta tendência para criar em torno de mim um outro mundo, igual a este mas com outra gente, nunca me saiu da imaginação.”

Cada heterônimo de Pessoa apresentava personalidade própria: características físicas, atividades literárias específicas, visões políticas e religiosas particulares. Confira a seguir os heterônimos mais conhecidos:

  • Alberto Caeiro: era um engenheiro influenciado pelo simbolismo e futurismo;

  • Álvaro de Campos: escrevia poesias de maneira simples, direta e concreta;

  • Ricardo Reis: era um médico que contemplava o bucolismo em suas obras;

  • Bernardo Soares: considerado o alter ego do português, é o “semi-heterônimo” de Pessoa, por ser o mais parecido com ele. Com esse nome, o poeta escreveu o Livro do desassossego, considerado sua principal obra.

Saiba mais: Tudo sobre os heterônimos de Fernando Pessoa

Confira também: Exercícios sobre Fernando Pessoa e seus heterônimos

CASA FERNANDO PESSOA

Inaugurada em 30 de Novembro de 1993, em Lisboa, a Casa Fernando Pessoa é um espaço cultural situado no local onde o escritor morou nos seus últimos 15 anos de vida.

Também conhecida como “casa de poesia”, o centro contempla a biblioteca particular do escritor, com grande parte dos livros que, de fato, pertenciam ao português.

O local, que preserva objetos pessoais, documentos e mobiliários usados por ele, é considerado um ponto turístico da capital de Portugal.


Por Silvia Tancredi
Jornalista


Fernando Pessoa é o escritor português mais famoso no mundo *
ALGUNS POEMAS DE FERNANDO PESSOA

Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado
[sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos

Autopsicografia

O poeta é um fingidor. 
Finge tão completamente 
Que chega a fingir que é dor 
A dor que deveras sente. 

E os que leem o que escreve, 
Na dor lida sentem bem, 
Não as duas que ele teve, 
Mas só a que eles não têm. 

E assim nas calhas de roda 
Gira, a entreter a razão, 
Esse comboio de corda 
Que se chama coração. 

Fernando Pessoa

Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho. 
Cada momento mudei. 
Continuamente me estranho. 
Nunca me vi nem acabei. 
De tanto ser, só tenho alma. 
Quem tem  alma não tem calma. 
Quem vê é só o que vê, 
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo, 
Torno-me eles e não eu. 
Cada meu sonho ou desejo 
É do que nasce e não meu. 
Sou minha própria paisagem; 
Assisto à minha passagem, 
Diverso, móbil e só, 
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo 
Como páginas, meu ser. 
O que segue não prevendo, 
O que passou a esquecer. 
Noto à margem do que li 
O que julguei que senti. 
Releio e digo:  "Fui  eu ?" 
Deus sabe, porque o escreveu. 

Fernando Pessoa

É Preciso Também não Ter Filosofia Nenhuma

Não basta abrir a janela 
Para ver os campos e o rio. 
Não é bastante não ser cego 
Para ver as árvores e as flores. 
É preciso também não ter filosofia nenhuma. 
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas. 
Há só cada um de nós, como uma cave. 
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora; 
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse, 
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela. 

Alberto Caeiro

Colhe o Dia, porque És Ele

Uns, com os olhos postos no passado, 
Veem o que não veem: outros, fitos 
Os mesmos olhos no futuro, veem 
O que não pode ver-se. 

Por que tão longe ir pôr o que está perto — 
A segurança nossa? Este é o dia, 
Esta é a hora, este o momento, isto 
É quem somos, e é tudo. 

Perene flui a interminável hora 
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto 
Em que vivemos, morreremos. Colhe 
O dia, porque és ele. 

Ricardo Reis

IN: https://brasilescola.uol.com.br/literatura/os-melhores-poemas-fernando-pessoa.htm

TANCREDI, Silvia. "Fernando Pessoa"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/biografia/fernando-pessoa.htm. Acesso em 18 de maio de 2020.


O MARINHEIRO 

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