Indicações de leituras, comentários de obras literárias e afins.
quinta-feira, 13 de agosto de 2020
CRUZ E SOUSA - MISSAL E BROQUÉIS
CRUZ E SOUSA
João da Cruz e Sousa nasceu em 24 de novembro de 1861, em Florianópolis (SC). Era filho de ex-escravos e ficou sob a proteção dos antigos proprietários de seus pais, após receberem alforria. Por este motivo, recebeu uma educação exemplar no Liceu Provincial de Santa Catarina. Além disso, o sobrenome Sousa é advindo do ex-patrão, o marechal Guilherme Xavier de Sousa, o que demonstra o afeto do mesmo para com os pais do futuro autor.
Apesar disso, Cruz e Sousa teve que enfrentar o preconceito racial que era muito mais evidente na época do que é hoje em dia. No entanto, isso não foi pretexto para desmotivá-lo, uma vez que é conhecido como o mais importante escritor do Simbolismo.
Foi diretor do jornal abolicionista Tribuna Popular em 1881. Dois anos mais tarde, foi nomeado promotor público de Laguna (SC), no entanto, foi recusado logo em seguida por ser negro.
Depois de algum tempo no Rio Grande do Sul e após enfrentar represália para não sair de sua terra natal por motivo de preconceito, o autor fixa residência no Rio de Janeiro, onde trabalhou em empregos que não condiziam com sua capacidade e formação.
É então, em 1893, que publica suas obras Missal (poemas em prosa) e Broquéis (poesias), as quais são consideradas o marco inicial do Simbolismo no Brasil que perduraria até 1922 com a Semana de Arte Moderna.
Casou-se com Gavita Gonçalves, com quem teve quatro filhos, os quais morreram precocemente por tuberculose, o que deixou-a enlouquecida 1896. Foi o escritor quem cuidou da esposa, em casa mesmo. Essa é a temática de muitos poemas de Cruz e Sousa.
A linguagem de Cruz e Sousa, herdada do Parnasianismo, é requintada, porém criativa, na medida em que dá ênfase à musicalidade dos versos por intermédio da exploração dos aspectos sonoros dos vocábulos.
Cruz e Sousa faleceu aos 36 anos, em 19 de março de 1898, vítima do agravamento no quadro de tuberculose.
Veja um trecho do poema “Cristais”, no qual é claro o uso da sinestesia, recurso estilístico que associa dois sentidos ou mais (audição, visão, olfato, etc.):
Mais claro e fino do que as finas pratas o som da tua voz deliciava… Na dolência velada das sonatas como um perfume a tudo perfumava.
Era um som feito luz, eram volatas em lânguida espiral que iluminava, brancas sonoridades de cascatas… Tanta harmonia melancolizava.
Filtros sutis de melodias, de ondas de cantos volutuosos como rondas de silfos leves, sensuais, lascivos…
Como que anseios invisíveis, mudos, da brancura das sedas e veludos, das virgindades, dos pudores vivos.
Obras:
Poesia:
Broquéis (1893);
Faróis (1900);
Últimos sonetos (1905).
Prosa poética:
Tropos e fanfarras (1885) em conjunto com Virgílio Várzea,
Missal (1893);
Evocações (1898).
Por Sabrina Vilarinho Graduada em Letras
BIOGRAFIA DE CRUZ E SOUSA RETIRADA DE:
VILARINHO, Sabrina. "Cruz e Sousa "; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/literatura/cruz-sousa.htm.
A IMPORTÂNCIA DE CRUZ E SOUSA PARA O SIMBOLISMO BRASILEIRO
Cruz e Sousa é considerado o mais importante poeta simbolista brasileiro e um dos maiores poetas de todos os tempos. Contudo, o escritor só teve seu valor reconhecido postumamente, depois de ter sido incluído pelo sociólogo francês Roger Bastide entre os maiores poetas do Simbolismo universal.
Sua obra poética apresenta diversidade e riqueza. De um lado, encontram-se nela aspectos noturnos do Simbolismo, herdados do Romantismo: o culto da noite, certo satanismo, o pessimismo, a morte.
De outro lado, há certa preocupação com o formal, que aproxima o poeta dos parnasianos: a forma de lapidar, o gosto pelo soneto, o verbalismo requintado, a força das imagens; há ainda a inclinação à poesia meditativa e filosófica, que o aproxima da poesia realista portuguesa, principalmente da produzida por Antero de Quental.
Cruz e Sousa, juntamente com o poeta realista Antero de Quental e o pré-modernista brasileiro Augusto dos Anjos, apresenta uma das poéticas de maior profundidade em língua portuguesa, em razão da investigação filosófica e da angústia metafísica presentes nas suas composições.
Na obra de Cruz e Sousa, o drama da existência revela uma provável influência das ideias pessimistas do filósofo Schopenhauer, que marcava o final do século XIX. Certas posturas presentes em sua poesia - o desejo de fugir da realidade, de transcender a matéria e integrar-se espiritualmente no cosmo - parecem originar-se não apenas do sentimento de opressão e mal-estar produzidos pelo capitalismo, mas também do drama racial e pessoal que o autor vivia.
A trajetória da obra de Cruz e Sousa parte da consciência e da dor de ser negro, em Broquéis, e chega à dor de ser homem em Faróis e Últimos sonetos, obras póstumas nas quais sobressai a busca pela transcendência.
Características mais importantes da poesia de Cruz e Sousa:
no plano temático: a morte, a transcendência espiritual, a integração cósmica, o mistério, o sagrado, o conflito entre matéria e espírito, a angústia e a sublimação sexual, a escravidão e uma verdadeira obsessão por brilhos e pela cor branca;
no plano formal: as sinestesias, as imagens surpreendentes, a sonoridade das palavras, a predominância de substantivos e adjetivos e o emprego de maiúsculas, utilizadas com a finalidade de dar valor absoluto a certos termos.
BROQUÉIS
É composto por 54 poemas, demarcados com a presença da cor branca em variados jogos e matizes - seja a presença da luminosidade do luar, da neblina; seja a presença da neve, das imagens vaporosas, dos cristais, como no belíssimo 'Antífona', poema de abertura da obra.
'Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
De luares, de neves, de neblinas!...
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...
Incensos dos turíbulos das aras...'
A partir de um dos sonetos do livro - Carnal e Místico, define-se a dicotomia que será básica nesses poemas. A carne, a sensualidade e a luxúria explodem com intensidade dramática em vários poemas.
O soneto é a forma poética mais cultivada em 'Broquéis' - ainda um traço parnasiano - mas a temática é inteiramente simbolista, bem como determinados recursos verbais inequívocos: estilização de diferentes apoios fonéticos, como a assonância, as aliterações, os cognatismos e as sinestesias, criando assim um universo etéreo, delicado, musical.
A carne, a sensualidade e luxúria explodem com intensidade dramática em vários poemas. A lasciva da carne atrativa manifesta-se em 'Lésbia':
'...Lésbia nervosa, fascinante e doente,
Cruel e demoníaca serpente.
Das flamejantes atrações do gozo...'
Como revela este soneto, o transcendental de Cruz e Souza não se define claramente. Não se trata do 'céu' de nenhuma religião concreta. Sempre vagas são as expressões que a ele se referem: naves do Infinito, regiões tenuíssimas da bruma, mundos ignorados, vagos infinitos, branco Sacrário das Saudades, Estrelas do Infinito, Azuis dos siderais Empíreos, Azuis etéreos.
Essa mesma indefinição vaga caracteriza as referências reiteradas ao tema do sonho, bem como a redução frequente de tudo a 'quimera'.
Os dilaceramentos paradoxais, a busca ansiosa de uma realidade satisfatória, o confronto dos débitos carnais com as aspirações místicas conduzem o poema a temáticas vigorosas, densas, trágicas e dramáticas, atingindo até o grotesco. São explosões de vida que se torturam na ânsia de realização, impedidas por barreiras, convenções ou preconceitos. A própria seleção vocabular densifica esse vigor dinâmico impresso nos versos: o poeta se refere a Satã como capro e revel, com bizarros e lúbricos contornos e báquicos adornos. A adjetivação carrega de particular intensidade dramática a realidade enfocada, como em 'a torva Morte horrenda,/ atra, sinistra, gélida, tremenda'. Ou então é a tortura eterna da expressão arística que angustia o poeta:
'Ah' que eu não possa eternizar as dores
nos bronzes e nos marmóreos eternos.'
Broquéis é um livro de poesia maior. O Simbolismo nele refulge na sua linguagem colorida, exótica e vigorosa; na abstração vaga e diluída de toda a materialidade; na imprecisa mas dominante tendência mística, envolvendo todo um vocabulário litúrgico; na linguagem figurada, constantemente fórica, de aliterações e sinestesias; na crescente musicalidade que emana de seus versos. São poemas simbolistas, mas poemas carregados de sentimento e de vivências vigorosas. Poemas que identificam a tortura existencial do poeta, totalmente dedicado à criação poética.
Se em 'Broquéis' predominam os sonetos, integram 'Faróis' menos sonetos e mais poemas longos. Se no livro anterior já emergia a concepção dramática da vida, em 'Faróis' se intensifica esse senso trágico da existência atingindo níveis de morbidez e satanismo.
Conscientiza-se o poeta cada vez mais do seu em paredamento. Avoluma-se sua angústia ante o destino inclemente, como estabelece claramente 'Meu Filho', um dos raros poemas referentes à família:
'Ah! Vida! Vida! Vida! Incendiada tragédia.
Transfigurado Horror, Sonho transfigurado,
Macabras contorções de lúgubre comédia
Que um cérebro de louco houvesse imaginado'.
Pemas como 'Pandemonium', 'A Flor do Diabo', 'Tédio', 'Caveira', 'Música da Morte', 'Inexorável', 'Olhos de Sonho', 'Litania dos Pobres' constituem alguns exemplos que acentuam os aspectos trágicos, macabros e mesmo satânicos da existência, conduzindo a cenas e descrições dramáticas. O poema final - 'Ébrios e cegos' - sintetiza, em cores negras, esse quadro trágico da existência: