Olavo Bilac (1865-1918) foi um poeta, contista e jornalista brasileiro. É o autor da letra do Hino à Bandeira. Foi um dos principais representantes do Movimento Parnasiano que valorizou o cuidado formal do poema, em busca de palavras raras, rimas ricas e rigidez das regras da composição poética. É membro fundador da Academia Brasileira de Letras.
Infância e Juventude
Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac nasceu no Rio de Janeiro, no dia 16 de dezembro de 1865. Filho do cirurgião do exército, Brás Martins dos Guimarães e de Delfina Belmira Gomes de Paula, só conheceu o pai em 1870, quando este voltou da Guerra do Paraguai.
Em 1880, Bilac entrou para a Faculdade de Medicina e depois Direito, sem concluir nenhum dos cursos.
Olavo Bilac dedicou-se à poesia e ao jornalismo, publicou suas primeiras poesias, em 1883, na Gazeta Acadêmica. Nesse mesmo ano, conheceu Alberto de Oliveira e sua irmã Amélia de Oliveira, por quem se apaixonou, mas foi impedido de casar, pois a família não aceitava a vida boêmia do poeta.
Em 1888, Olavo Bilac publicou seu primeiro livro, Poesias. Nele, o poeta já demonstrava estar plenamente identificado com as propostas do Parnasianismo, como na famosa Profissão de Fé, que enaltece a perfeição formal, explicitando o ideal estético da poesia:
Profissão de Fé
Invejo o ourives quando escrevo: Imito o amor Com que ele, em ouro, o alto relevo Faz de uma flor. Imito-o. E, pois, nem de Carrara A pedra firo: O alvo cristal, a pedra rara, O ônix prefiro.
Olavo Bilac teve participação intensa na política e em campanhas cívicas de alcance nacional. Republicano e nacionalista, em 1889, escreveu a letra do “Hino à Bandeira”.
Durante a revolta da Armada, em 1893, foi perseguido pelo governo do marechal Floriano Peixoto, sendo obrigado a se esconder por algum tempo em Minas Gerais. Foi preso na Fortaleza da Lage, no Rio de Janeiro.
Em 1897, Olavo Bilac participou da fundação da Academia Brasileira de Letras, ocupou a cadeira de n.º 15. Em 1907, no auge da popularidade, foi eleito o primeiro “Príncipe dos Poetas Brasileiros”, em um concurso promovido pela revista Fon-Fon.
Bilac exerceu vários cargos públicos, foi oficial da Secretaria do Interior, no Rio de Janeiro, inspetor escolar e secretário de duas Conferências Pan-Americanas, uma no Rio de Janeiro e outra em Buenos Aires. Viajou pelo Brasil, fazendo campanhas cívicas em prol da alfabetização e do serviço militar obrigatório.
Olavo Bilac morreu no Rio de Janeiro, no dia 28 de dezembro de 1918.
Características da obra de Olavo Bilac
A poesia de Olavo Bilac apresenta várias temáticas:
Na linha tipicamente parnasiana, escreveu sobre cenas da mitologia greco-romana, abordada em Delenda Cartago, Lendo a Ilíada, O Sonho de Marco Antônio e A Sesta de Nero, em que se destaca o preciosismo da linguagem:
A Sesta de Nero
Fulge de luz banhado, esplêndido e suntuoso,
O palácio imperial de pórfiro luzente
E mármor da Lacônia. O teto caprichoso
Mostra, em prata incrustado, o nácar do Oriente.
Nero no toro ebúrneo estende-se indolente...
Gemas em profusão do estrágulo custoso
De ouro bordado vêm-se. O olhar deslumbra, ardente,
Da púrpura da Trácia o brilho esplendoroso.
O patriotismo: Bilac tratou fatos da história brasileira. Alguns versos traduzem o ideário renovador da República, outros exaltam a bandeira ou glorificam os bandeirantes, como em Caçador de Esmeraldas.
Caçador de Esmeraldas
Fernão Dias Pais Leme agoniza. Um lamento Chora longo, a rolar na longa voz do vento. Mugem soturnamente as águas. O céu arde. Trasmonta fulvo o sol. E a natureza assiste, Na mesma solidão e na mesma hora triste, À agonia do herói e à agonia da tarde.
O Amor: Bilac retrata o amor sob todos os prismas: material, espiritual, platônico e sensual:
Satânia
Nua, de pé, solto o cabelo às costas,
Sorri. Na alcova perfumada e quente
Pela Janela, como um rio enorme
Profusamente a luz do meio-dia
Entra e se espalha palpitante e viva. (...)
O Lirismo: no seu último livro Tarde, Bilac mistura motivos líricos e filosóficos, no qual é constante a preocupação com a morte e o sentido da vida
Tarde
Talvez haja na morte o eterno olvido,
talvez seja ilusão na vida tudo...
ou geme um deus em cada ser ferido...
Não afirmo, não nego. É vão o estudo.
Quero clamar de horror porque duvido,
Mas, porque espero, - espero e fico mudo.
Olavo Bilac morreu no Rio de Janeiro, no dia 28 de dezembro de 1918.
Obras de Olavo Bilac
Poesias, 1888
Via Láctea, 1888
Sarças de Fogo, 1888
Crônicas e Novelas, 1894
O Caçador de Esmeraldas, poesia, 1902
As Viagens, poesia, 1902
Alma Inquieta, poesia, 1902
Poesias Infantis, 1904
Crítica e Fantasia, 1904
Tratado de Versificação, 1905
Conferências Literárias, 1906
Ironia e Piedade, crônicas, 1916
A Defesa Nacional (1917)
Tarde, poesia, 1919 (publicação póstuma)
DILVA FRASÃO - Possui bacharelado em Biblioteconomia pela UFPE e é professora do ensino fundamental. Desde 2008 trabalha na redação e revisão de conteúdos educativos para a web
João da Cruz e Sousa nasceu em 24 de novembro de 1861, em Florianópolis (SC). Era filho de ex-escravos e ficou sob a proteção dos antigos proprietários de seus pais, após receberem alforria. Por este motivo, recebeu uma educação exemplar no Liceu Provincial de Santa Catarina. Além disso, o sobrenome Sousa é advindo do ex-patrão, o marechal Guilherme Xavier de Sousa, o que demonstra o afeto do mesmo para com os pais do futuro autor.
Apesar disso, Cruz e Sousa teve que enfrentar o preconceito racial que era muito mais evidente na época do que é hoje em dia. No entanto, isso não foi pretexto para desmotivá-lo, uma vez que é conhecido como o mais importante escritor do Simbolismo.
Foi diretor do jornal abolicionista Tribuna Popular em 1881. Dois anos mais tarde, foi nomeado promotor público de Laguna (SC), no entanto, foi recusado logo em seguida por ser negro.
Depois de algum tempo no Rio Grande do Sul e após enfrentar represália para não sair de sua terra natal por motivo de preconceito, o autor fixa residência no Rio de Janeiro, onde trabalhou em empregos que não condiziam com sua capacidade e formação.
É então, em 1893, que publica suas obras Missal (poemas em prosa) e Broquéis (poesias), as quais são consideradas o marco inicial do Simbolismo no Brasil que perduraria até 1922 com a Semana de Arte Moderna.
Casou-se com Gavita Gonçalves, com quem teve quatro filhos, os quais morreram precocemente por tuberculose, o que deixou-a enlouquecida 1896. Foi o escritor quem cuidou da esposa, em casa mesmo. Essa é a temática de muitos poemas de Cruz e Sousa.
A linguagem de Cruz e Sousa, herdada do Parnasianismo, é requintada, porém criativa, na medida em que dá ênfase à musicalidade dos versos por intermédio da exploração dos aspectos sonoros dos vocábulos.
Cruz e Sousa faleceu aos 36 anos, em 19 de março de 1898, vítima do agravamento no quadro de tuberculose.
Veja um trecho do poema “Cristais”, no qual é claro o uso da sinestesia, recurso estilístico que associa dois sentidos ou mais (audição, visão, olfato, etc.):
Mais claro e fino do que as finas pratas o som da tua voz deliciava… Na dolência velada das sonatas como um perfume a tudo perfumava.
Era um som feito luz, eram volatas em lânguida espiral que iluminava, brancas sonoridades de cascatas… Tanta harmonia melancolizava.
Filtros sutis de melodias, de ondas de cantos volutuosos como rondas de silfos leves, sensuais, lascivos…
Como que anseios invisíveis, mudos, da brancura das sedas e veludos, das virgindades, dos pudores vivos.
Obras:
Poesia:
Broquéis (1893);
Faróis (1900);
Últimos sonetos (1905).
Prosa poética:
Tropos e fanfarras (1885) em conjunto com Virgílio Várzea,
Missal (1893);
Evocações (1898).
Por Sabrina Vilarinho Graduada em Letras
BIOGRAFIA DE CRUZ E SOUSA RETIRADA DE:
VILARINHO, Sabrina. "Cruz e Sousa "; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/literatura/cruz-sousa.htm.
A IMPORTÂNCIA DE CRUZ E SOUSA PARA O SIMBOLISMO BRASILEIRO
Cruz e Sousa é considerado o mais importante poeta simbolista brasileiro e um dos maiores poetas de todos os tempos. Contudo, o escritor só teve seu valor reconhecido postumamente, depois de ter sido incluído pelo sociólogo francês Roger Bastide entre os maiores poetas do Simbolismo universal.
Sua obra poética apresenta diversidade e riqueza. De um lado, encontram-se nela aspectos noturnos do Simbolismo, herdados do Romantismo: o culto da noite, certo satanismo, o pessimismo, a morte.
De outro lado, há certa preocupação com o formal, que aproxima o poeta dos parnasianos: a forma de lapidar, o gosto pelo soneto, o verbalismo requintado, a força das imagens; há ainda a inclinação à poesia meditativa e filosófica, que o aproxima da poesia realista portuguesa, principalmente da produzida por Antero de Quental.
Cruz e Sousa, juntamente com o poeta realista Antero de Quental e o pré-modernista brasileiro Augusto dos Anjos, apresenta uma das poéticas de maior profundidade em língua portuguesa, em razão da investigação filosófica e da angústia metafísica presentes nas suas composições.
Na obra de Cruz e Sousa, o drama da existência revela uma provável influência das ideias pessimistas do filósofo Schopenhauer, que marcava o final do século XIX. Certas posturas presentes em sua poesia - o desejo de fugir da realidade, de transcender a matéria e integrar-se espiritualmente no cosmo - parecem originar-se não apenas do sentimento de opressão e mal-estar produzidos pelo capitalismo, mas também do drama racial e pessoal que o autor vivia.
A trajetória da obra de Cruz e Sousa parte da consciência e da dor de ser negro, em Broquéis, e chega à dor de ser homem em Faróis e Últimos sonetos, obras póstumas nas quais sobressai a busca pela transcendência.
Características mais importantes da poesia de Cruz e Sousa:
no plano temático: a morte, a transcendência espiritual, a integração cósmica, o mistério, o sagrado, o conflito entre matéria e espírito, a angústia e a sublimação sexual, a escravidão e uma verdadeira obsessão por brilhos e pela cor branca;
no plano formal: as sinestesias, as imagens surpreendentes, a sonoridade das palavras, a predominância de substantivos e adjetivos e o emprego de maiúsculas, utilizadas com a finalidade de dar valor absoluto a certos termos.
BROQUÉIS
É composto por 54 poemas, demarcados com a presença da cor branca em variados jogos e matizes - seja a presença da luminosidade do luar, da neblina; seja a presença da neve, das imagens vaporosas, dos cristais, como no belíssimo 'Antífona', poema de abertura da obra.
'Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
De luares, de neves, de neblinas!...
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...
Incensos dos turíbulos das aras...'
A partir de um dos sonetos do livro - Carnal e Místico, define-se a dicotomia que será básica nesses poemas. A carne, a sensualidade e a luxúria explodem com intensidade dramática em vários poemas.
O soneto é a forma poética mais cultivada em 'Broquéis' - ainda um traço parnasiano - mas a temática é inteiramente simbolista, bem como determinados recursos verbais inequívocos: estilização de diferentes apoios fonéticos, como a assonância, as aliterações, os cognatismos e as sinestesias, criando assim um universo etéreo, delicado, musical.
A carne, a sensualidade e luxúria explodem com intensidade dramática em vários poemas. A lasciva da carne atrativa manifesta-se em 'Lésbia':
'...Lésbia nervosa, fascinante e doente,
Cruel e demoníaca serpente.
Das flamejantes atrações do gozo...'
Como revela este soneto, o transcendental de Cruz e Souza não se define claramente. Não se trata do 'céu' de nenhuma religião concreta. Sempre vagas são as expressões que a ele se referem: naves do Infinito, regiões tenuíssimas da bruma, mundos ignorados, vagos infinitos, branco Sacrário das Saudades, Estrelas do Infinito, Azuis dos siderais Empíreos, Azuis etéreos.
Essa mesma indefinição vaga caracteriza as referências reiteradas ao tema do sonho, bem como a redução frequente de tudo a 'quimera'.
Os dilaceramentos paradoxais, a busca ansiosa de uma realidade satisfatória, o confronto dos débitos carnais com as aspirações místicas conduzem o poema a temáticas vigorosas, densas, trágicas e dramáticas, atingindo até o grotesco. São explosões de vida que se torturam na ânsia de realização, impedidas por barreiras, convenções ou preconceitos. A própria seleção vocabular densifica esse vigor dinâmico impresso nos versos: o poeta se refere a Satã como capro e revel, com bizarros e lúbricos contornos e báquicos adornos. A adjetivação carrega de particular intensidade dramática a realidade enfocada, como em 'a torva Morte horrenda,/ atra, sinistra, gélida, tremenda'. Ou então é a tortura eterna da expressão arística que angustia o poeta:
'Ah' que eu não possa eternizar as dores
nos bronzes e nos marmóreos eternos.'
Broquéis é um livro de poesia maior. O Simbolismo nele refulge na sua linguagem colorida, exótica e vigorosa; na abstração vaga e diluída de toda a materialidade; na imprecisa mas dominante tendência mística, envolvendo todo um vocabulário litúrgico; na linguagem figurada, constantemente fórica, de aliterações e sinestesias; na crescente musicalidade que emana de seus versos. São poemas simbolistas, mas poemas carregados de sentimento e de vivências vigorosas. Poemas que identificam a tortura existencial do poeta, totalmente dedicado à criação poética.
Se em 'Broquéis' predominam os sonetos, integram 'Faróis' menos sonetos e mais poemas longos. Se no livro anterior já emergia a concepção dramática da vida, em 'Faróis' se intensifica esse senso trágico da existência atingindo níveis de morbidez e satanismo.
Conscientiza-se o poeta cada vez mais do seu em paredamento. Avoluma-se sua angústia ante o destino inclemente, como estabelece claramente 'Meu Filho', um dos raros poemas referentes à família:
'Ah! Vida! Vida! Vida! Incendiada tragédia.
Transfigurado Horror, Sonho transfigurado,
Macabras contorções de lúgubre comédia
Que um cérebro de louco houvesse imaginado'.
Pemas como 'Pandemonium', 'A Flor do Diabo', 'Tédio', 'Caveira', 'Música da Morte', 'Inexorável', 'Olhos de Sonho', 'Litania dos Pobres' constituem alguns exemplos que acentuam os aspectos trágicos, macabros e mesmo satânicos da existência, conduzindo a cenas e descrições dramáticas. O poema final - 'Ébrios e cegos' - sintetiza, em cores negras, esse quadro trágico da existência:
Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu em 20 de abril de 1884, no Engenho Pau D’Arco, Vila do Espírito Santo, atual município de Sapé, na Paraíba. Filho de antigos senhores de engenho, o poeta vivenciou, desde a infância, a lenta decadência de sua família. O pai, bacharel em Direito, ensinou-lhe as primeiras letras até seu ingresso no Liceu Paraibano para cursar o ensino secundário.
Em 1903, matriculou-se na Faculdade de Direito de Recife. Nesse período, começou a publicar alguns poemas no jornal paraibano O Comércio. Os versos chamaram a atenção dos leitores, principalmente de maneira negativa: o poeta foi tido como histérico, desequilibrado, neurastênico, qualidades que lhe seriam atribuídas ao longo da vida. Na Paraíba, foi apelidado de “Doutor Tristeza”.
Formado em 1907, Augusto dos Anjos nunca exerceu a profissão de advogado ou magistrado. Foi de Recife para a capital paraibana, onde passou a lecionar Língua Portuguesa e Literatura Brasileira. Em 1910, casou-se com Ester Fialho, com quem teve três filhos – o primeiro deles morreu ainda recém-nascido.
Desentendimentos com o governador da Paraíba levaram o poeta a se transferir para o Rio de Janeiro, onde passou a lecionar Geografia depois de cerca de um ano desempregado. Em 1912,publica seu único livro, Eu, com a ajuda financeira do irmão. Mas não obteve nenhum reconhecimento do público leitor – exceto o repúdio da crítica de seu tempo, apegada ao lirismo comedido e parnasiano.
Em junho de 1914, mudou-se para Leopoldina (MG), assumindo o cargo de diretor de um grupo escolar na cidade, mas uma pneumonia dupla interrompeu a trajetória do poeta, que faleceu com apenas 30 anos, em 12 de novembro de 1914.
Estilo de Augusto dos Anjos
Augusto dos Anjos é provavelmente o mais original dos poetas brasileiros. Embora tenha recebido algumas influências do Simbolismo e do Naturalismo, movimentos poéticos em voga na época, seu estilo literário não se encaixa em nenhuma das escolas.
Pessimista, cósmica, paradoxal, mórbida e angustiante, a poesia de Augusto dos Anjos é feita de um vocabulário científico misturado com uma tristeza profunda. O questionamento existencial encontra a ciência e a Teoria da Evolução de Darwin em uma combinação insólita, jamais vista antes, que constantemente relembra a fatal finitude humana nos termos dadecomposição da matéria, da carne putrefata que encerra o tempo do vivente.
O amor, o prazer, a volúpia não são senão uma luta orgânica das células, como o é toda a existência humana, destinada a tornar-se cadáver e alimentar os vermes decompositores. E a própria construção dos versos de Augusto dos Anjos exprime essa luta: tudo é dito de maneira dura, cheia de excessos e hipérboles, em métrica rígida.
Trata-se de uma estética da podridão, da agonia, da deformação, misturando termos filosóficos e biológicos que eclodem em um grito violento em busca das razões da existência humana. Influenciada por Arthur Schopenhauer, cuja teoria filosófica percebia uma perene impossibilidade de felicidade, já que a vida humana se resume a um pêndulo entre o sofrimento e o tédio, a poesia de Augusto dos Anjos reverbera uma “eterna mágoa”, uma dor existencial perene a que estão implacavelmente submetidos todos os seres.
Obras de Augusto dos Anjos
Augusto dos Anjos foi poeta de um livro só, intitulado Eu. Isso se deu em parte por sua morte prematura, em parte pelo gosto literário da época, que deliberadamente ignorou seu volume de poemas, ou o rechaçou veementemente. Olavo Bilac, bastante famoso em sua época, tomou conhecimento da existência do poeta apenas depois de sua morte e ao ouvir declamado um dos poemas de Augusto dos Anjos, disse: “Fez bem em morrer, não se perde grande coisa”.
A arrogância, petulância e insensibilidade do “príncipe dos poetas” parnasiano não poderia se provar mais errada: Augusto dos Anjos obteve fama póstuma. A terceira edição de seu livro de poemas, publicada em 1928, adicionou mais alguns escritos à coletânea, passando a se chamar Eu e outras poesias e vendeu 3 mil exemplares em 15 dias e 5.500 exemplares em dois meses. O livro já ultrapassa as 40 edições e Augusto dos Anjos segue sendo um dos poetas mais lidos do Brasil.
Em "O morcego", Augusto dos Anjos traz uma visão pessimista da vida e do ser humano, ele compara a consciência humana ao morcego, pois a consciência aparece quando nos recolhemos em nosso quarto, à noite, e, por mais que tentemos afastá-la, ela nos mostra que nossa natureza é ruim, é feia, é monstruosa.
Versos íntimos
Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. Somente a Ingratidão – esta pantera – Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera! O Homem, que, nesta terra miserável, Mora entre feras, sente inevitável Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro! O beijo, amigo, é a véspera do escarro, A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga, Apedreja essa mão vil que te afaga, Escarra nessa boca que te beija!
“Versos íntimos” talvez seja o mais conhecido dos poemas de Augusto dos Anjos. Soneto decassílabo, com esquema de rimas ABBA-BAAB-CCD-EED, exprime a revolta diante da vivência atroz da máxima hobbesiana “o homem é o lobo do homem”. Nessa “terra miserável”, “entre feras”, não florescem os afetos – é um mundo de ingratidão, onde o beijo precede o escarro, onde aquele que ontem afagava, hoje apedreja.
Psicologia de um vencido
Eu, filho do carbono e do amoníaco, Monstro de escuridão e rutilância, Sofro, desde a epigênese da infância, A influência má dos signos do zodíaco.
Profundíssimamente hipocondríaco, Este ambiente me causa repugnância... Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme – este operário das ruínas – Que o sangue podre das carnificinas Come, e à vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los, E há de deixar-me apenas os cabelos, Na frialdade inorgânica da terra!
Vocabulário Rutilância: brilho, esplendor Epigênese: processo de desenvolvimento de um embrião a partir de um zigoto sem forma Frialdade: frieza, indiferença
Em “Psicologia de um vencido”, também um soneto decassílabo com esquema de rimas ABBA-BAAB-CCD-EED, percebemos a presença pungente do vocabulário científico paralelamente a um quadro de sofrimento perene, que desde a infância o acompanha. Misérrimo (e com gosto pelos superlativos), sente repugnância pelo mundo, como se atingido por uma doença, com sintomas físicos. E percebe atento o verme, em analogia à morte, ao fim da existência e da matéria, que o espreita: é a estética da podridão.
Entenda o poema PSICOLOGIA DE UM VENCIDO, Augusto dos Anjos COM O VÍDEO DE LITERA.
Budismo moderno
Tome, Dr., esta tesoura, e... corte Minha singularíssima pessoa. Que importa a mim que a bicharia roa Todo o meu coração, depois da morte?!
Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também, das diatomáceas da lagoa A criptógama cápsula se esbroa Ao contato de bronca destra forte!
Dissolva-se, portanto, minha vida Igualmente a uma célula caída Na aberração de um óvulo infecundo Mas o agregado abstrato das saudades Fique batendo nas perpétuas grades Do último verso que eu fizer no mundo!
Vocabulário Diatomáceas: algas unicelulares que realizam fotossíntese e são encontradas em água doce ou salgada Criptógama: plantas que se reproduzem por meio de esporos Esbroa: reduz a pó, desagrega-se
“Budismo moderno” também é um soneto decassílabo, mas, dessa vez, com esquema de rimas ABBA-ABBA-CCD-EED. Nesse poema, o vocabulário biológico e muitas vezes esdrúxulo, pouquíssimo convencional em composições poéticas (“diatomáceas”, “criptógama”, “célula”, “óvulo”), é utilizado para enfatizar a composição orgânica, material da vida humana. A sugestão para que o médico o corte é já uma primeira lembrança dessa existência carnal: o coração, metáfora sentimental por excelência, terminará apenas como alimento dos vermes decompositores.
Uma curiosidade sobre esse soneto em particular é ter sido musicado por Arnaldo Antunes.
Queixas noturnas
Quem foi que viu a minha Dor chorando?! Saio. Minh’alma sai agoniada. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada, entre esses monstros, ando!
[...]
O quadro de aflições que me consomem O próprio Pedro Américo não pinta... Para pintá-lo, era preciso a tinta Feita de todos os tormentos do homem!
[...]
Bati nas pedras dum tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza é minha única saúde.
[...]
Sobre histórias de amor o interrogar-me É vão, é inútil, é improfícuo, em suma; Não sou capaz de amar mulher alguma Nem há mulher talvez capaz de amar-me.
O amor tem favos e tem caldos quentes, E ao mesmo tempo que faz bem, faz mal; O coração do poeta é um hospital Onde morreram todos os doentes.
Hoje é amargo tudo quanto eu gosto; A bênção matutina que recebo... E é tudo: o pão que como, a água que bebo, O velho tamarindo a que me encosto!
[...]
Melancolia! Estende-me a tu’asa! És a árvore em que devo reclinar-me... Se algum dia o Prazer vier procurar-me Dize a este monstro que eu fugi de casa!
“Queixas noturnas” é um longo poema, composto de 19 quadras decassílabas (rimas entre os versos 1 e 4; 2 e 3 de cada estrofe), do qual destacamos alguns trechos. Sabemos, já pelo título, que se trata de uma lamentação. Dor, agonia, monstros, aflições, tormentos, doença: tudo isso acomete o poeta, cuja tristeza é tão intensa que Pedro Américo (1843-1905), grande pintor acadêmico responsável por quadros famosos como Independência ou morte! (1888), não seria capaz de representar em uma obra.
O próprio poeta luta para expressar tamanha aflição diante de uma vida em que o amor, o prazer, a luz solar, tudo perdeu o sentido. Importante a menção ao tamarindo, árvore que desde a infância o acompanha e que aparece em diversos outros poemas. Trata-se de um dado biográfico: Augusto dos Anjos sentava-se à sombra do tamarindo na propriedade de Engenho do Pau d’Arco para escrever. A árvore foi preservada e pode ser visitada no Memorial Augusto dos Anjos, no município de Sapé (PB).
Frases de Augusto dos Anjos
“Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!” (do poema Vandalismo)
“Que ninguém doma um coração de poeta!” (do poema Vencedor)
“O amor, poeta, é como a cana azeda,/ A toda boca que o não prova engana.” (do poema Versos de amor)
“A mão que afaga é a mesma que apedreja.” (do poema Versos íntimos)
“O amor na Humanidade é uma mentira.” (do poema Idealismo)
“A Consciência Humana é este morcego!/ Por mais que a gente faça, à noite, ele entra/ Imperceptivelmente em nosso quarto!” (do poema O morcego)
AUGUSTO DOS ANJOS E A LITERATURA
Augusto dos Anjos, o mais sombrio dos poetas brasileiros, foi também o mais original. Sua obra poética, composta por apenas um livro de poemas, não se encaixa em nenhuma escola literária, embora tenha sido influenciado por características do Naturalismo e do Simbolismo, a produção única de Augusto dos Anjos não pode ser enquadrada em nenhum desses movimentos. É por isso que classificamos o poeta juntamente aos seus contemporâneos do Pré-Modernismo.
Mesclando termos filosóficos embebidos em puro pessimismo e vocabulário científico, que raramente seriam encontrados em textos poéticos, Augusto dos Anjos escreveu uma poesia violenta, visceral, atravessada por uma angústia cósmica, por uma eterna lembrança sepulcral.